A jornada de uma vida.

white and brown train door
white and brown train door

Como foi o começo.

(por minha mãe)

Um dia em casa você disse “mãe, não tô vendo bem” (diplopia). Aí eu levei você para o oculista. Ele examinou e disse que você não tinha nada na vista. Esse foi só o começo né? (Arcoverde, 1977)

Então depois veio aquela viagem a Águas Finas (Recife). Por causa do calor, a quentura que a gente levou no carro, e muito banho de piscina no clube, aí você adoeceu. Fomos para Limoeiro e você chegou com diarreia e desidratação, e foi internado. Depois que você teve alta, voltamos para Arcoverde. Nem eu, nem ninguém, sabia nada de neurologia né? Só víamos que você já estava com deficiência no braço direito e nas pernas, mas não dava para a gente saber. Eu não sabia o que era, nem muito menos você. A gente ia de um médico para outro. Até que um deles disse “vocês têm plano de saúde, né? Então deveriam ir para Recife".

E assim fomos para a casa dos seus padrinhos em Recife, e para o hospital Jorge de Medeiros, onde você passou vinte dias. Sem nenhum médico descobrir o que você tinha, até que foi chamada uma neuropediatra que te examinou, falou com os médicos, examinou os resultados de exames que você havia feito e disse “ele tem uma doença desmielinizante". (esclerose múltipla). E você passou a tomar o corticóide Decadron. Voltamos para Arcoverde, com você ainda fazendo o desmame do remédio. Você estava com a barriga inchada, e andava se segurando nas paredes.

Levei para o seu pediatra e ele recomendou que te tirasse da escola, pois você não teria condições de frequentar as aulas. Eu chorei e fiz uma promessa para você voltar a andar, que pago até hoje.

Já com idade mais madura, eu notei que sempre um surto vinha devido a um grande estresse físico junto a um grande abalo emocional e o clima quente.

Destes três o que se mostrou mais relevante foi a parte emocional, e quanto a isso o que mais ajuda como forma de controle é o autoconhecimento.

Então, foi-me dito "você tem uma doença autoimune", e eu, criança, não dei importância. Até que, já mais crescido, resolvi dar mais atenção a isso, e procurei a definição.

Quando uma pessoa tem uma doença autoimune, o sistema imunológico — que deveria proteger o corpo contra vírus e bactérias — confunde as células saudáveis com invasores e passa a atacar o próprio organismo.

Isso, realmente, é ser o meu maior inimigo, e o que mais vier daí. Como por exemplo, ser contra a minha própria felicidade. É absurdo, eu sei, mas essas confusões podem facilmente acontecer, por isso o "orai e vigiai" é tão importante.

Aos quinze anos, através da orientadora educacional do meu colégio, descobri a terapia. Daí em diante passei por três terapeutas e cheguei a quarta, que frequento até os dias de hoje, aos 56 anos. Assim, achei uma forma de vigiar e orar diferente, com um acompanhamento real

Só assim eu consigo transformar uma vida cheia de limites em outras possibilidades de viver uma vida única e satisfatória.

Apesar de tudo.